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I GRANDE GUERRA

 

O dia em que as luzes se apagaram…

Sarajevo, 28 de Junho de 1914.
O herdeiro do trono da Áustria-Hungria, Francisco Fernando, e a sua mulher, a duquesa de Hohenburg, caiem assassinados na capital Bósnia.
Os conspiradores de Sarajevo, incluindo Gavrilo Princip, que disparou os tiros fatais, eram sérvios bósnios - súbditos do império Austro-Húngaro -, com ligações ao grupo Mão Negra, que os teria armado e ajudado a atravessar a fronteira.
A 28 de Julho a Aústria-Hungria cortava relações diplomáticas com a Sérvia, iniciando, um dia mais tarde, o bombardeamento de Belgrado. No mesmo dia Nicolau II ordenou a mobilização geral contra a Alemanha e a Áustria, a que se seguiu, inevitavelmente, a declaração de guerra de Guilherme II, no início de Agosto. A partir daí os acontecimentos sucederam-se a um ritmo avassalador: declaração de guerra da Alemanha à França e invasão da Bélgica; abandono da neutralidade da Grã-Bretanha e entrada do Império Britânico na guerra. A 12 de Agosto, Churchill implementou o bloqueio naval aos portos alemães do Mar do Norte, procurando evitar a entrada ou saída de provisões de alimentos.
Entre desencontros políticos e desacertos estratégicos, a crise era agora incontrolável: o que tinha começado por ser uma guerra local transformara-se, rapidamente, numa confrontação entre os dois blocos em que as principais potências europeias se tinham dividido desde os primeiros anos da década de 80 do século XIX. Nos primeiros dias de Agosto, cinco das principais potências europeias (Grã-Bretanha, França, Rússia, Áustria-Hungria e Alemanha) estavam já em guerra, apenas a Itália conseguira permanecer neutral. Neste jogo de destruição e morte não havia lugar para empates: travava-se uma guerra que só poderia ser totalmente ganha ou totalmente perdida.
A Primeira Guerra Mundial envolveu todos os países europeus, com excepção da Espanha, os Países Baixos, a Escandinávia e a Suíça. Portugal mobilizou mais de cem mil homens, destes cerca de oito mil perderam a vida nas trincheiras da Flandres ou nos campos de batalha de África.
A República manteve-se neutra, mas ao abrigo da Aliança inglesa, autorizou a passagem de tropas e armamentos através dos seus territórios, em África.
A 11 de Setembro de 1914 partiram as primeiras expedições militares portuguesas para Angola e Moçambique.

 

 Who’s Absent ?

Portugal tinha nos seus portos inúmeros navios alemães e austríacos. Na sequência da declaração de Guerra, cerca de 734 navios alemães tinham-se refugiado em águas neutras; destes, cerca de setenta (aproximadamente 242 000 toneladas) encontravam-se em portos portugueses.
A 23 de Fevereiro de 1916, um destacamento da Armada portuguesa subiu a bordo dos navios alemães e austríacos que se encontravam no estuário do Tejo e, com honras militares, fez içar a bandeira portuguesa. Quase em simultâneo Afonso Costa apoiando-se no artigo 10.º da Lei das Subsistências, promulgava um decreto regulando o serviço de requisições de meios de transporte marítimos.
No dia 16 de Março de 1916, a Alemanha emitiu uma declaração formal de guerra a Portugal. Foi então mobilizado o CEP (Corpo Expedicionário Português) e o CAPI (Corpo de Artilharia Pesada Independente).
A prestação do CEP ficou indissociada da batalha de La Lys, travada a 9 de Abril de 1918, data prevista para a rendição do efectivo militar português. Na sequência do confronto, o CEP foi destroçado pelo exército alemão e inúmeros dos seus efectivos foram feitos prisioneiros.

 

Guerra e República

No seu conjunto a participação de Portugal na I Guerra Mundial ditou o fim da I República. A Guerra pôs a nu, exacerbando-as, todas as clivagens que tinham caracterizado o regime desde a sua implantação, em Outubro de 1910: acentuou a impopularidade do Partido Democrático e de Afonso Costa e contribuiu para intensificar o conflito entre o movimento operário e a República.
Continua a ser difícil relembrar com exactidão qual a razão de ser, a origem e o detonador desta Guerra que se fez grande pela dimensão, pelos métodos, pela logística e pela mortandade… resta-nos apenas uma certeza: das suas ruínas nasceria, para o bem e para o mal, uma nova ordem mundial. 

 

 

LISBOA REPUBLICANA

 

O roteiro dedicado à “Lisboa Republicana” está associado ao projecto Autocarro da República, desenvolvido pela Comissão Nacional para as Comemorações do Centenário da República, a Companhia Carris de Ferro de Lisboa e a Câmara Municipal de Lisboa, tendo em vista a divulgação do património histórico e material da I República e do Republicanismo identificado na cidade de Lisboa.

Os pontos assinalados no mapa reúnem a toponímia associada às principais figuras e acontecimentos deste período, assim como o património artístico, cultural e arquitectónico da I República, cujo legado inclui museus, cinemas, teatros, coretos, fontes e jardins, mas também edifícios públicos, equipamentos sociais, escolas, associações, empresas, lojas, restaurantes e cafés, a par de todo o património imaterial associado à memória da I República e do Republicanismo.
O percurso pela cidade que serviu de palco aos principais acontecimentos da Revolução pressupõe ainda a visita aos pontos históricos onde se desenrolaram os momentos mais decisivos dos dias 3, 4 e 5 de Outubro de 1910.

Deste modo, através do roteiro agora disponibilizado, convidam-se os lisboetas em particular e todos os visitantes em geral a percorrer as ruas da Lisboa Republicana, personalizando e organizando a sua visita em descoberta do património histórico e material republicano.

Entre os pontos de interesse estão ainda referenciadas algumas das iniciativas promovidas pela CNCCR e a
decorrer em Lisboa, com destaque para as exposições do centenário.

Pelas ruas da República
Através da toponímia podem desenhar-se um pouco por todo o mapa de Lisboa traços dos acontecimentos mais marcantes da I República, desde a revolução que deu nome à Avenida 5 de Outubro, passando pelas incursões monárquicas ao longo da Av. Defensores de Chaves ou revisitando um pouco da história da I Guerra Mundial junto à Rua das Enfermeiras da Grande Guerra.
Mas a toponímia republicana lisboeta dedica grande parte da sua memória aos que protagonizaram todos estes acontecimentos, na vida política, social, cultural e económica do País, destacando também entre eles artistas, intelectuais, professores e cientistas. Perto da Avenida da República, encontra-se uma outra Avenida dedicada a António José de Almeida, chefe do governo e presidente da República; a poucos passos está a rua que homenageia Tomás Cabreira, republicano e ministro das Finanças que dedicou parte da sua vida à educação popular; a alguns metros de distância fica a Avenida Miguel Bombarda, médico psiquiatra e revolucionário que em 3 de Outubro de 1910 foi assassinado por um paciente, não chegando a assistir à implantação da República. Um pouco por toda a malha urbana, vão-se identificando outros residentes, desde o caricaturista Rafael Bordalo Pinheiro, o médico Egas Moniz, os presidentes Manuel de Arriaga, Teófilo Braga e Bernardino Machado, a médica e republicana Adelaide Cabete, a escritora e jornalista Angelina Vidal.
Outras ruas são ainda reservadas aos protagonistas do 5 de Outubro, onde se destaca Cândido dos Reis, que deu nome à conhecida Avenida Almirante Reis.
A memória do património científico e tecnológico está também presente na toponímia da cidade, onde se pode percorrer, por exemplo, a Praça das Indústrias, a Rua do Instituto Bacteriológico ou a Rua da Escola de Medicina Veterinária.

Herança republicana na Lisboa quotidiana
A história da I República deixou também profundas marcas na Lisboa quotidiana, onde ainda hoje estão abertos ao público cafés, restaurantes, museus, teatros, cinemas e outros espaços centenários de lazer e cultura. Entre os espaços museológicos contam-se, por exemplo, o Museu Bordalo Pinheiro e o Museu-Escola João de Deus.
No domínio artístico identificam-se, entre outras instituições, a Sociedade Nacional de Belas-Artes e o Museu de Arte Contemporânea.
No que se refere ao desenvolvimento social, destacam-se, por exemplo, o Bairro Arco do Cego, projectado em 1919, embora a sua construção só viesse a ser concluída nos anos 30, e a Maternidade Alfredo da Costa, cujo projecto de construção remonta também ao período I República. No quadro associativo e dos lazeres encontram-se ainda, por toda a cidade, clubes desportivos, associações recreativas e de beneficência.

A um passo da Brasileira
Perto d’ A Brasileira do Chiado, que abriu portas ao público em 1922, encontra-se o Teatro Municipal de S. Luiz. Antigo teatro D. Amélia, este espaço foi renomeado “Teatro da República” em 1911 e destruído por um incêndio em 1914, só reabrindo, já reconstruído, em 1916. Aqui se estreou a actriz Amélia Rey Colaço em 1917.
Subindo novamente a rua do Teatro, e regressando à Brasileira, encontra-se o largo do Chiado, assim designado desde 1925 em homenagem ao poeta, cuja estátua se encontra em frente ao famoso café da Baixa. Descendo a Avenida da Liberdade, percorrem-se os teatros Tivoli, edifício dos anos 20 projectado pelo arquitecto Raúl Lino, e o Politeama, da autoria de Ventura Terra, inaugurado em 1913.

Lisboa na sala de aula
A viagem pelos espaços republicanos lisboetas reserva ainda uma paragem especial pelos estabelecimentos de ensino criados entre 1910 e 1926 ou que constituem herança do republicanismo, em matéria de instrução e divulgação do ideário republicano, onde se identificam inúmeros centros escolares republicanos, como o Grémio de Instrução Liberal de Campo de Ourique, criado em 1910, o Centro Escolar Republicano Bernardino Machado, cuja origem remonta a 1907, ou o Centro Escolar Republicano Almirante Reis, criado em 1911.
Entre os edifícios escolares históricos, sublinham-se ainda a Escola Oficina n.º1, no bairro da Graça, que recebeu um dos mais interessantes projectos pedagógicos republicanos, e a Escola de Normal de Lisboa, actual Escola Superior de Educação de Lisboa, em Benfica, cuja construção foi concluída em 1918.

 

Venha conhecer a Lisboa Republicana

PERCURSO DO 5 DE OUTUBRO

 

Na manhã de 5 de Outubro de 1910, a República foi proclamada da varanda da Câmara Municipal de Lisboa. Este momento assinalou historicamente a implantação da República no País e deu voz oficial à Revolução desencadeada no dia 3.

 

A via revolucionária para a implantação da República saiu vencedora no Congresso Republicano de Setúbal, realizado entre os dias 23 e 25 de Abril de 1909, no Teatro D. Amélia. Durante o encontro foram constituídos dois comités revolucionários: um civil e um militar. António José de Almeida, por indicação expressa da Alta Venda da Carbonária, assumiu a “direcção” civil, cabendo a Cândido dos Reis, João Chagas e Afonso Costa controlar a facção militar. Ambos os comités deveriam funcionar em articulação com os grupos que a Carbonária vinha já organizando nos quartéis e nos bairros populares.

 

A 30 de Janeiro de 1910 o Directório do P.R.P. decidiu, em assembleia magna presidida por Teófilo Braga, avançar para a revolução. Os comícios de propaganda multiplicaram-se. O PRP aumentou os apoios entre a população. A população, agitava-se, contagiada pelas perspectivas de mudança que a oratória republicana deixava cair.

 

O caminho para a República estava definido, combinando acções múltiplas no sentido de garantir o sucesso da revolução e preparando o seu reconhecimento no quadro internacional. Daí a decisão do Congresso do Partido Republicano, reunido no Porto em Abril, elegendo uma comissão a quem confiou a missão de sondar os governos das principais potências europeias sobre o reconhecimento internacional da eventual proclamação da República.

 

O plano da Revolução seria estruturado nos meses seguintes, combinando o entendimento do Directório do Partido Republicano e a acção da Comissão de Resistência da Maçonaria. Em Julho, Guerra Junqueiro e Sampaio Bruno concluíram o texto da Proclamação de implantação da República.

 

Em Agosto, realizam-se eleições, o Partido Republicano duplicou a sua representação parlamentar, conseguindo eleger 14 deputados. Em 29 de
Setembro, os representantes implicados no movimento revolucionário reuniram em 29 de Setembro, na sede do Directório do Partido Republicano Português (na esquina da Rua Serpa Pinto com o Largo de S. Carlos).

 

Por fim, no dia 2 de Outubro, encontrando-se em Portugal o Presidente eleito do Brasil, Marechal Hermes da Fonseca, realiza-se a reunião em que é definitivamente marcada a eclosão do movimento revolucionário para a 1 hora da madrugada do dia 4. Estavam presentes os principais implicados militares, sob a presidência de António José de Almeida. Perante as dúvidas dos oficiais do exército presentes, Cândido dos Reis, apoiado pelo capitão Afonso Pala, decide avançar. "A revolução está decidida." No mesmo dia, Cândido dos Reis transmite a Machado Santos e aos restantes chefes militares a senha da revolução: "Mandou-me procurar? - Passe cidadão!".

 

Entretanto, a 3 de Outubro de 1910, depois de jantar com o Presidente do Brasil, o rei, D. Manuel II, partiu para o Palácio das Necessidades, enquanto o seu tio, e herdeiro da coroa, D. Afonso, seguia para a Cidadela de Cascais.

 

Na mesma noite, o estado-maior político da revolta republicana reunia nos Banhos de S. Paulo, estando ausente o Dr. Miguel Bombarda, chefe civil da revolta, assassinado, nesse dia, por um doente no hospital de Rilhafoles.

 

A revolução republicana iniciou-se em Lisboa nessa mesma madrugada, apoiando-se na sublevação dos principais quartéis de marinheiros da
capital, em três vasos de guerra fundeados no Tejo, e duas unidades do Exército (Infantaria 16 em Campo de Ourique e Artilharia 1 em Campolide), bem como na acção de milhares de civis carbonários.

 

Os acontecimentos revolucionários concentraram-se na Rotunda, onde, após vários confrontos com a Guarda Municipal, os revoltosos se barricaram, sob o comando do comissário naval Machado Santos. Sem conseguirem ocupar o Palácio das Necessidades, os revoltosos, com o apoio da artilharia civil da carbonária, combateram as forças militares fiéis à monarquia até que os navios Adamastor e São Rafael bombardearam o Palácio Real das Necessidades, pondo em fuga a Família Real, primeiro para Mafra, depois, no dia 5 de Outubro, com destino a Gibraltar embarcando na praia da Ericeira.

 

Na manhã do dia 5 de Outubro, em Lisboa, dirigentes do Partido Republicano Português dirigiram-se aos Paços do Concelho, de cuja varanda, José Relvas, acompanhado por Eusébio Leão e Inocêncio Camacho, proclamou a República: "Unidos todos numa mesma aspiração ideal, o Povo, o Exército e a Armada acabou de, em Portugal, proclamar a República".

 

O regime republicano já tinha sido proclamado, na véspera, em Loures e em vários municípios da margem sul do Tejo.

OS PORTOS PORTUGUESES

 

O roteiro dedicado aos “Portos na I República” pretende identificar os portos que maior actividade registaram no período republicano, bem como as várias Juntas Autónomas criadas entre os anos de 1910 e 1928.

 

Até à Revolução Industrial, grosso modo, o valor dos portos para a economia do País não dava azo a grandes reflexões, e, apenas pontualmente, se apostava no seu melhoramento. A maioria das intervenções levadas a cabo tinha, geralmente, um propósito exacto, visando corrigir uma situação concreta e circunscrita, como a reparação de um molhe destruído pelos temporais, ou o desassoreamento da barra que ficara bloqueada pelos detritos arrastados nas últimas cheias…

 

Com o início do século XX, terminava, porém, o tempo dos portos naturais, para se ir dando lugar, progressivamente, ao tempo dos portos artificiais. As constantes e rápidas transformações ocorridas ao nível da navegação, a substituição da vela pelo vapor e o cada vez maior porte das embarcações, sujeitaram os portos a contínuas alterações, num esforço de se enquadrarem nas novas rotas das grandes companhias comerciais e de operarem como plataformas de rotação do comércio externo. De resto, a localização privilegiada do País, e o elevado grau de dependência externa nacional, levaram a que se pensasse no desenvolvimento das infra-estruturas portuárias nacionais.

 

Em 1901, encarregava-se o Engenheiro Adolfo Ferreira de Loureiro do estudo das obras e melhoramentos realizados e necessários em todos os portos nacionais, de forma a definir-se o caminho a seguir nos anos seguintes. Deste estudo resultou a mais importante compilação relativa ao estado e potencialidades dos portos portugueses para este período, intitulada Os Portos Marítimos de Portugal e Ilhas Adjacentes. Em termos práticos, porém, o conhecimento do estado do sector portuário acabou por não conduzir à definição de uma estratégia de melhoramento dos portos nacionais.

 

A I República e os portos nacionais 
A implantação da República, a 5 de Outubro de 1910, trouxe consigo a esperança de uma mudança de rumo, no que dizia respeito, também, ao sector portuário.

Não obstante as dificuldades e falhas, foi notória, a partir de 1910, uma maior concentração de esforços em alguns portos nacionais, designadamente Lisboa e Douro-Leixões e, em grau mais reduzido, Figueira da Foz, Viana do Castelo, Portimão, Lagos e Funchal.
Conquanto o melhoramento dos portos portugueses revelasse ser uma questão fulcral e urgente para o bom desempenho económico do País, os descuidos, desmandos e indecisões foram mais que muitos.

A I Guerra Mundial
A partir de 1914, os anos de Guerra e de pós-Guerra, agravaram por demais este cenário, cerceando, desde logo, a capacidade de disponibilização dos dinheiros públicos, e privados.
De resto, e muito embora o contexto de Guerra tenha representado uma chamada de atenção para a situação de impreparação dos portos portugueses, a quase total paralisação do tráfego marítimo, as devastadoras consequências advindas da inflação, da carência de géneros, as perdas humanas das impreparadas tropas portuguesas, a falta de uma marinha mercante que assegurasse as trocas e o comércio nacionais, e a desvalorização monetária, acabaram por impossibilitar ou dificultar o desenvolvimento e conclusão de muitas das obras, melhoramentos e reparos programados.

A criação das Juntas Autónomas
Depois da Guerra, percebeu-se, enfim, que não era possível, nem apostar no desenvolvimento de muitos grandes portos, nem dispersar, irreflectidamente, verbas por todos eles, sendo indispensável concentrar recursos e energias.
Procurando evitar-se dispêndios irreflectidos de capital, apostou-se numa estrutura local, dependente do Estado, que, pela proximidade no terreno, teria maior possibilidade de se inteirar das efectivas necessidades de cada porto e de actuar no sentido de lhes dar resposta: as Juntas Autónomas.
Uma Junta Autónoma era uma corporação local, delegada pelo Governo, que tinha a seu cargo a exploração e administração do porto ao qual estava ligada. Regra geral, os objectivos das Juntas eram: executar estudos de viabilidade, levar a cabo as obras, construções, reparos e apetrechamentos necessários ao bom funcionamento do porto, e promover o tráfego comercial e marítimo do porto.
Esperava-se, assim, que os portos nacionais fossem capazes de dar o salto, e de acompanhar as transformações ao nível da navegação e do comércio. Mercê de imponderáveis vários, pouco seria, efectivamente, alterado.

I Fase do Plano Portuário Nacional
A 28 de Maio de 1926, um movimento militar colocava termo à Iª República.

Foi já neste contexto, de Ditadura Nacional, que se publicaram, finalmente, os importantes diplomas legislativos que viriam definir, em termos concretos, os contornos do desenvolvimento portuário nacional.

A 4 de Dezembro de 1926, era publicada a Lei de Portos (Decreto nº 12757) que, com algumas alterações e acrescentos, recuperava o projecto de lei apresentado ainda pelos republicanos a 21 de Abril de 1926, mas que não chegara a ser votado, nem sequer discutido.
Esta lei portuária, constituindo-se como a base para o desenvolvimento dos portos do continente e ilhas adjacentes, estabelecia também a classificação dos diferentes portos nacionais, distribuindo-os por quatro categorias, consoante a sua importância e o volume da tonelagem de carga embarcada e desembarcada.
Os portos considerados de 1ª classe, eram os que funcionavam como pontos de escala de importantes linhas de navegação ou de importantes redes de comunicações interiores, com elevado tráfego de mercadorias ou passageiros, ficando a cargo exclusivo do Estado.
Foram apenas quatro os portos admitidos nesta categoria: Lisboa, Douro-Leixões, Funchal e Ponta Delgada. Como portos de 2ª classe foram considerados: Setúbal, Vila Real de Santo António, Horta (Ilha do Faial – Açores), e todos os portos de pesca que viessem ainda a ser criados. Como portos de 3ª classe: Aveiro, Faro, Figueira da Foz, Lagos, Olhão, Peniche, Portimão, S. Martinho do Porto, Tavira, Viana do Castelo e Angra do Heroísmo (Ilha Terceira – Açores). Todos os restantes foram englobados numa 4ª categoria.

Finalmente, a 30 de Setembro de 1929, o decreto nº 17421, constituiu a concretização, em letra de lei, do que viria a ser a I Fase do Plano Portuário Nacional, definindo prioridades de intervenção e distribuindo verbas pelos diversos portos nacionais. As intervenções programadas dirigiam-se, essencialmente, para os portos considerados de interesse nacional (Lisboa e Leixões) e para os portos regionais mais importantes (Setúbal, Vila Real de Santo António, Aveiro, Viana do Castelo e Figueira da Foz). Previu-se a conclusão das operações para 1932, estimando-se a despesa total em 250 mil contos. 

 

Fontes
CAMPOS, Ezequiel de, A Conservação da Riqueza Nacional: a grei, os minerais, a terra, as matas, os rios, Porto, 1913;
CARQUEJA, Bento, “Aspectos económicos dos portos modernos”, in Revista da Faculdade de Engenharia, Universidade do Porto, vol. 1, nº 3, 1934;
PRATA, Ana Filipa, Políticas Portuárias na Iª República (1880-1929), [Texto Policopiado], Tese de Mestrado em História Contemporânea, Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, Universidade Nova de Lisboa, Lisboa, 2008.


DELEGAÇÕES DA SOCIDADE DE PROPAGANDA DE PORTUGAL

 

Entre os finais do século XIX e os inícios do século XX, a promoção da actividade turística dava os seus primeiros passos. Viajar por prazer, para conhecer outros lugares e costumes, era uma actividade que se tornava cada vez mais acessível a mais pessoas.

 

Em Portugal, se o interesse público e privado, no sector do Turismo, vinha de anos anteriores, como o atestam, entre outras iniciativas, a criação da Sociedade de Propaganda de Portugal, a 28 de Fevereiro de 1906, e a publicação do Manual do Viajante de Portugal, em 1907, foi durante a I República que se deu, formalmente, a sua institucionalização.

 

Logo em Maio de 1911, Lisboa recebia o IV Congresso Internacional de Turismo e o governo provisório da República criava as primeiras estruturas oficiais do sector: a Repartição de Turismo e o Conselho de Turismo.

 

Nos anos seguintes, a República primou por construir a imagem de um Portugal turístico, rivalizando directamente com os mais prestigiados destinos dos turistas europeus.

 

Apostou-se numa forte propaganda dando a conhecer o património nacional e as diversas riquezas do País. Listaram-se as riquezas naturais nacionais, termas, praias, monumentos, hotéis, casinos, festas e bailes…

 

Num esforço de atrair turistas, Portugal começou a ser apresentado em diversos guias e manuais para viajantes, como um local único na Europa e no mundo, com valências várias, destino ideal para quem procurava animação, cultura, repouso, ócio ou lazer.

 

Progressivamente, as praias da Figueira da Foz, Maçãs, Nazaré, Santa Cruz e Lagos e as termas das Pedras Salgadas, Vidago e Curia deixaram de ser apresentadas apenas como lugares de tratamento para maleitas várias, para se irem convertendo em locais únicos de lazer e recreio.

 

Parte significativa do trabalho de promoção do País enquanto destino turístico foi realizada pela Sociedade de Propaganda de Portugal e pelas suas diversas delegações locais e internacionais, espalhadas um pouco por todo o mundo, as quais diversas vezes alertaram o Poder Central e Local para as péssimas condições das estradas e ferrovias nacionais, e para o descuido e falta de condições das unidades hoteleiras do País.

 

São precisamente essas delegações da Sociedade de Propaganda de Portugal que se procuram identificar neste roteiro.

Fonte

Portugal. Clima, Paisages, Estaciones Termales, etc., Lisboa, Sociedade Propaganda de Portugal, 1915.

VIAJAR EM PORTUGAL

 

Durante a I República, a promoção da actividade turística e a apresentação do País ao exterior e a potenciais turistas e viajantes constituíram duas preocupações crescentes. Foram efectivamente grandes os esforços no sentido de promover Portugal como destino turístico.

 

Para os republicanos, de resto, um bom cidadão tinha o dever de conhecer bem o seu País, as suas tradições e o seu património. Fazer turismo, não era apenas, viajar, era aprender, conhecer novas culturas e diferentes costumes.

 

A Sociedade de Propaganda de Portugal, criada ainda em 1906, e a Repartição de Turismo, criada em 1911, foram as principais responsáveis pela apresentação de Portugal à Europa e ao mundo. Através da publicação de diversos guias, folhetos, brochuras e cartazes, em português, inglês, francês, espanhol… fez-se a exaltação das paisagens e do património nacional.

 

No âmbito das diversas actividades de promoção do turismo nacional, convidaram-se vários jornalistas ingleses a visitar o País, os quais se esperava que escrevessem artigos e notícias, em revistas estrangeiras, publicitando o património e as riquezas portuguesas.

 

Chegado a Portugal, em 1913, o grupo de jornalistas convidado, viajou pelo País, por terra e por mar, durante 10 dias, entre 16 e 26 de Fevereiro. Entre os diversos locais visitados, destaca-se a capital, Lisboa; Guimarães, Porto, Buçaco, Batalha, Tomar, Estoril, Sintra, Praia da Rocha, Sagres e Vila Real de Santo António.

 

Este roteiro procura, precisamente, ilustrar e identificar o percurso da visita deste grupo de jornalistas a Portugal, em Fevereiro de 1913.

 

 

Fontes
Boletim da Sociedade de Propaganda de Portugal, 7.º ano, n.º 1, Janeiro de 1913;
Boletim da Sociedade de Propaganda de Portugal, 7.º ano, n.º 2-3, Fevereiro e Março de 1913.